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Por uma vida menos ordinária...


Eu tive infância... Acho que nem eu sabia disso!

Hoje vejo que tudo começou com uma boneca que saída da caixinha no meio da noite atrás de um doce... Ela morava numa loja de brinquedos, onde havia um soldado com uma espada muito grande.

Depois me lembro de ter visto um menino pintando uma cerca de branco. Ele fazia de conta q estava se divertindo à beça com aquela tarefa tão chata, para que as outras crianças q passassem se interessassem e quisessem completar o serviço no lugar dele. Sei que um tempo depois esse mesmo menino viajou num balão... E viveu ainda algumas outras aventuras com seu amigo pobretão Huck Finn... Que por sua vez também saiu aprontando das suas, na região do Mississipi.
Os dois nem devem saber disso, mas fazem parte da minha vida desde quando os conheci...

Certa vez estive numa ilha onde havia um tesouro. Não, não... Já estive em diversas ilhas com tesouros. E vi piratas que recendiam a Rum e cantavam canções de lugares que eu nem sabia ainda que existiam. Já conheci muitos e muitos velhos lobos do mar... Já vi batalhas e batalhas afundando navios. Já vi marujos enlouquecendo por razões que eu ainda não poderia compreender...
Já estive numa ilha perdida... Numa montanha mágica... Num planeta onde todos eram bichos... Num jardim trancado ha muitos anos por um homem que não sabia sorrir.

Fiquei amiga de uma boneca de pano que falava pelos cotovelos, conheci um menino que caçava onças, vi lambaris do Reino das Águas Claras, usei muito pó de pirlimpimpim...

Eu vi um menino no espelho. Vi um fantasma dançando no escuro, vi um gênio do crime, passei noites desvendando casos de suspense no Egito ou na Mesopotâmia.

Já morri de medo de escuro, medo de fantasma, medo de Homem do Saco, medo de Mula-sem-cabeça...

E não posso nunca me esquecer do principezinho de outro planeta, que veio aqui me mostrar algumas coisinhas da vida e depois virou estrela...

Eu sei o Segredo de Taquara-poca.
Fui capturada por canibais africanos.
Conversei com os espíritos dos natais passados.
Vi um rei transformando tudo o q tocava em ouro. Conheço um Titã q até hj está aprisionado no Cáucaso, conheci deuses poderosos, conheci um homem com cabeça de Touro, vi cavalos alados, vi uma ninfa aprisionada num tronco dum pinheiro...

Me lembro que certa vez conheci um menino meio cego, que só descobriu seu problema de visão quando conseguiu emprestados os óculos de um médico que visitava a região... Conheci muita gente a se acabar no sertão. Vi uma família de seis pessoas se deteriorar... Me emocionei com uma garotinha loura suíssa que amava o seu avô e os seus carneirinhos...

Acho que vivi um pouco da infância de muitas, mas muuuuitas outras pessoas que já tinham sido crianças antes de mim e resolveram contar suas histórias nos livros. E por isso acabei tendo amigos q perambulavam pela roça, amigos que iam pra igreja mas faziam pecado depois, amigos que fugiam de casa e depois voltavam... Amigos que nadavam pelados no rio, amigos que matavam passarinho com bodoque, amigos que pegavam bicho de pé, amigos que apanhavam muito do pai e depois voltavam a fazer molecagem.

Uma vez vi um menino ser atropelado por um trem. Aquela imagem não me sai da cabeça até hoje.

Na curta história da minha infância tem matuto, tem mendigo, tem ladrão, tem bailarina, tem coronel, tem astronauta, tem mãe com muitos filhos pequenos, tem mágico com assistente de maiô prateado, tem criança que virou anjo (porque afinal, deus sempre leva os bons meninos pro céu logo)...

E foi vivendo todas essas coisas lindas que eu gastei as cerca de 87.600 primeiras horas da minha vida. E aos poucos fui criando os macaquinhos que tenho hoje -com muito orgulho- no sótão.

Agora, depois disso tudo, posso dizer que já tenho pernas enormes (que dão pra abraçar o mundo). E fogo no rabo. E vento nos pés...

E não há quem possa dizer que eu não tenha tido infância de verdade. Pq, se uma parte de mim sempre estava num canto qualquer enfiada num livro... A outra parte sempre voou livre, livre... E sabe-se lá por onde andou...

À todas as pessoas que se preocupavam tanto com meu comportamento, com o fato de eu estar sempre no mundo da lua, com a minha desintonia, com o meu olhar sempre ausente:
Ainda bem que não me deixei sufocar com análise e racionalidade cristã-adulta naquela época... Porque por mais que eu tivesse sonhos assustadores e parecesse estar sempre sozinha... A minha alma perambulava sempre por lugares lindos e inesquecíveis!



Escrito por Anaestrel às 18:41:27
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Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Carlos Drummond de Andrade



Escrito por Anaestrel às 18:39:25
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Só mais uma do Hopper.

Ao som de April in Paris, com Billie Holiday...



Escrito por Anaestrel às 11:06:16
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