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Por uma vida menos ordinária...


Ó quanto riso...

A Colombina chegou à casa meio tonta da bebedeira. Cinco da manhã –suspirava pesado o relógio sobre o fogão. Por toda a noite vagara pelas ruas da cidade, embriagando-se com Pierrot, e ao mesmo tempo aguardando alguma aparição do Arlequim, num desespero daqueles de apertar o coração. Sentia o tempo todo uma inquietante angústia por tanto desperdício com maquiagem, perfume e salto alto. Isso sem falar na lingerie, que havia sido colocada com tanta paixão e que agora seria tirada com tanto desprezo. E no desejo, sufocado pela piedade, de apagar de vez da sua vida aquele Pierrot apaixonado. Vontade de esmagá-lo a cada palavra certa que ele proferia, a cada jura de amor que ele desferia, e cuspir-lhe na cara a cada beijo de piedade que ele suplicava! As roupas eram dignas de nojo. Um nojo imenso, que lhe contaminava o próprio corpo, as mãos e os cabelos antes perfumados e agora com o cheiro triste do cigarro e da gordura dos botecos. Um verdadeiro ódio pela maquiagem borrada pela noite, ódio dos brincos e colares arrancados pelos atos de desesperada e voluptuosa compaixão, ódio dos sonhos mortos e já apodrecidos espalhados pelos seios, pelo pescoço, pelo corpo inteiro. Um ódio pelo cheiro do sexo impregnando cada poro, cada gota de suor ressecada, cada lembrança, cada gargalhada gravada na cabeça.
A Colombina sabia que aquela noite havia sido apenas mais uma entre tantas em que se entregava ao prazer desesperado de sentir-se desejada a viva, apenas mais uma noite entregue à carência gulosa e áspera de um homem solitário e desprezível, apenas mais algumas horas de toda a sua vida de flor nascida no aterro, de borboleta pousada na sarjeta, de mulher perdida no mundo frio e sujo dos becos e dos loucos.
E sufocante era o nojo que aquela moça sentia diante de toda aquela beleza que agora manchava seu espelho. E suja era toda aquela poesia feita pelo Pierrot. Sujas todas as palavras, sujos todos os beijos e abraços e sonhos e lágrimas. Sujo era o amor que ela vira surgir naquele homem. Sujo, triste, verdadeiro, cruel, cruel, cruel...
Triste, ainda, era saber que o que lhe trazia todo esse nojo, todo esse desprezo, era justamente um amor nascido tão puro e tão grande, que o pobre Pierrot alimentava em seu coração, destruído em cada pedaço por cada palavra fria, cada riso debochado, cada olhar desprezível lançado por aquela moça para ele tão limpa. Limpa, pura, verdadeira. Mas triste, cruel, cruel, cruel...
Triste era o gosto de cachaça na garganta, triste era sentir o vazio dos sonhos perdidos e mortos. Triste o nojo dos homens, que tomava conta de todo o seu corpo, seus seios deliciosos, sua pele quente e macia, seus lábios corajosos e gulosos. O desejo é triste.
E naquela madrugada cruel e fria, já sem lingerie, sem perfume, sem maquiagem, olhando a cidade ainda escura pela janela, onde certamente vagava pelas ruas amargas um Pierrot desconsolado, sentindo o gosto azedo da cachaça suportada durante a noite, com nojo do próprio cheiro e do próprio gosto, sem esperança, sem amor, sem gosto por nada, a Colombina se preparava para a morte, doce e irresistivelmente certa, que descia pela garganta, dentro de cada pílula piedosa ingerida com água e açúcar.
Mal chegara a casa, após a noitada impiedosa, e jazia, nua, triste e fria. Levava para sempre consigo o amor miserável do Pierrot. E a lua, através da janela aberta, via aquela Colombina morrer, ansiando atormentada um último instante de misericórdia, em que surgisse pela porta um Arlequim que nunca havia de fato existido.


Escrito por Anaestrel às 15:11:54
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